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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Monólogo

Tudo era vazio e frio. Ele não sabia bem onde estava, mas não havia ninguém. Movia sua cabeça de um lado para o outro, mas não havia luz. Forçando a vista, procurava enxergar pelo menos a largura, altura ou profundidade de qualquer objeto que estivesse à sua frente. Em vão. Não havia chão, não havia teto, muito menos paredes. Era meio estranho, contudo já estava acostumado àquele lugar. Foi então que ouviu uma voz. Era a Solidão.

Dispensa-se a descrição dela. Todos conhecem ou já viram de relance a Solidão. Além do mais, estava escuro, então isso não é realmente necessário. De qualquer forma, o rapaz pensou em dizer “oi”, mas quando sua voz saiu, percebeu que era fina e aguda como a de uma criança. Era impossível, estava às vésperas do seu décimo sétimo aniversário. Mas realmente, perante a Solidão, quem é maduro o bastante? Tornamo-nos todos criaturas infantis.

- Desde quando estás aqui? – ela disse. Sua voz era um sussurro, quase o silêncio.- Desde muito tempo. Por favor, me traga luz que assim poderei ver você.

- Mas como? Não podes me ver? Não precisas de luz, já sou a escuridão que enche teus olhos. Esta sou eu.

Ele gemeu contrariado, mas já sabia daquilo. A luz se foi na mesma época em que tudo havia se ido.

- Por que não dialogas comigo?

- Porque dialogar com você é fazer um monólogo ao vento. Nem isso, pois nem os ventos podem me ouvir. Estou sozinho, nem as pessoas, a luz ou minha própria consciência me acompanham mais. Sendo assim, dispenso sua não-companhia, obrigado.

Entretanto, a Solidão insistiu:

- Mas por que estás só? Nunca se está sozinho, a não ser que se dispense todas as companhias. E este é teu maior erro: dispensas até a mim, que nada sou!

- Na verdade, uma. Dispensei apenas uma companhia. Todas as outras coisas foram só conseqüência. Tudo perdeu o sentido quando ela se foi.

- Amava-a?

- Muito, mas não amo mais. – disse ele, lembrando-se de que o amor havia partido na mesma época que a luz e muitas outras coisas.

- E por que abriste mão de sua companhia?

- Porque fui induzido ao erro. Me fizeram acreditar em algo no qual eu nunca poderia ter dado ouvidos. Depois de ter percebido a armadilha, a vergonha tomou conta de mim e não consegui ir até ela me desculpar. E quando a coragem venceu a vergonha e eu fui, já era tarde. Não havia perdão.

- Sentes raiva de ti mesmo?

- Senti, mas a raiva também já me deixou. Anteontem, acho. Isso se os dias já não tiverem me deixado também. Queria ao menos que ela pudesse me ouvir agora, e que quisesse me tirar daqui. Queria poder abrir meus olhos e não ver mais você, mas até quando os fecho, ainda lhe vejo...

- Tu não achas que queres muita coisa em vista do que fizeste? Não achas que tens isto por todo mal que fez àquela pessoa?

- Acho... sim... – lembrou de ficar triste, mas não era capaz. A tristeza já o havia deixado também.

Entrando numa introspecção, esqueceu a Solidão um instante e começou a lembrar tudo que havia passado com ela... Eram momentos que não voltariam mais, perdidos para sempre no passado. Não importava o que fosse acontecer dali pra frente, só uma pessoa poderia tirá-lo dali, e era ela, de fato. E junto com ela, a luz, a consciência, a raiva, os dias e a tristeza voltariam – e todas as outras coisas também. E quando os dias voltassem, se encontrariam com a felicidade já saudosa, e a partir daí então, os dias seriam felizes.

- Bom, vou-me indo. – disse a Solidão, cortando os pensamentos do rapaz. Ao ouvir isso, ele desesperou-se.

- Por favor, não vá! Não me deixe! Tudo já se foi, agora você?! Então leve minha vida também, não preciso mais da companhia dela!

- Poderia levar, mas não. Ninguém pode estar sempre sozinho em vida. Ao menos a vida deve acompanhá-lo, e eu não sou uma assassina, embora seja pior. – e sorriu. – Deixar-te-ei, porém a culpa já, já chega. Ela é meio irritante, mas ao menos não estarás sozinho. Ah, e às vezes ela traz amigos.

E então a Solidão se foi. Quando a Culpa chegou, nem bem cumprimentou, desatou a gargalhar da desgraça do rapaz. Era uma risada com vontade, daquelas bem agudas. Ela nem respirava, só gargalhava e gargalhava, sem cessar. E esse som estridente incessante dava nos nervos do rapaz, pesava-lhe os ombros. Sentia-se esmagado e humilhado.

Como prometido, a Culpa vez ou outra chamava a Raiva e a Tristeza, suas amigas. Quando a Tristeza ia, desatava a chorar, chegava a soluçar. Já a Raiva, não parava de gritar. Eram gritos de cólera, que assustavam o rapaz. Eram os piores momentos quando ficava a ouvir uma a rir, outra a chorar e outra a gritar, todas juntas sem nunca parar.

Nessas horas, lembrava-se de um rosto. Do rosto dela. A imagem era meio turva, mas ainda não o havia deixado, ele nunca permitiria. E percebia que, só ela ou a Morte poderiam tirá-lo dali, e que se ela não quisesse vir, por favor, que a Morte viesse.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Shinju

A Musa à casa chega
À casa retorna
E antes que vá embora
Peço que não me deixe só.

A felicidade às vezes nos esquece
Só para lembrarmos dela
Pois então, ó Musa, não me deixe
Que jamais te esquecerei

Deixo aqui toda a vida vã
Busco algo muito além do divã
Levo comigo apenas ti

Deixo aqui toda e qualquer coisa
Mas não esqueço nada
Pois junto de ti já levo tudo.

Elevador (Como Chegar Ao Meu Coração)

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T

S1

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Delirium

Crianças choram nas ruas desesperadas
Cadê seus pais?
Correm e vivem por um pote de cola
Às vezes por duas drogas ou mais

As senhoras já não são mais tão recatadas
Cada vez mais velhas com homens cada vez mais novos
Todas com mais dinheiro à medida que o tempo passa

Os adultos têm pressa, não podem parar.
No máximo para um cafezinho

Os adolescentes jogam a cabeça pra frente e pra trás
Ao som de guitarras pesadas
Ou então dançam balançando a bunda
Até o chão, chão, chão.

Daí entende-se: as pílulas não funcionam mais
Nem o Rivotril ou o Lexotan
Podem impedir essa loucura vã

Muitos morrem todo dia,
Mas poucos sabem que já morreram
A maioria só finge alegria

Mas quando chove - aí sim
Todos choram juntos com o céu
Levando as lágrimas todas aos bueiros
E gerando um grande alagamento.

Os potes de cola bóiam na água
As senhoras largam seus homens
E choram por seus filhos

Os jovens continuam batendo cabeça ou dançando
Até morrerem afogados no próprio lamaçal
De suas músicas

As crianças não param de gritar
Os gritos são tão irritantes que provocam ira no destino
Que as destrói, em pedaços, membro por membro.

Os adultos tomam suas pílulas de ilusão
Enquanto tentam controlar a situação
São frios e chatos
Só amam para se divorciar

Na verdade, pouco importam os outros
O que dá lucro são os negócios
Não se pode afetar o progresso
Só por meia dúzia de milhões de infantes.

O progresso, progresso
Nada mais destruidor
Tudo em nome do progresso
Até o regresso.

No meio do caos,
Um pai procura por seu filho, haviam brigado
Afinal, o filho era viado
Mas agora seu pai se arrependeu.
Em meio aos destroços, lá está ele!
Mas agora é o filho que não quer o pai
Então um poste cai sobre os dois

O que é a intolerância ao preconceito,
A não ser mais um preconceito?

Que morram todos
Não há a necessidade para que vivam,
Se for pra viverem assim.
Os anos passam no calendário,
E a única coisa que todos fazem é esperar
A morte chegar.

Pois bem, ela chegou
Para que o desespero?

O desespero vem dos seres aglomerados.
Quando se juntam em grupo, prometendo união,
É só um pretexto à solidão
Na verdade, a lei do mais forte deve prevalecer
E não há os fortes sem os fracos.

A Solidariedade é uma mentira
A Amizade é uma mentira
A Família é uma mentira
O Poder é uma mentira

Menos o Amor!
O Amor é puro, essência da vida
Os humanos não foram feito para andarem em bandos, alcatéias
Foram feitos para viverem a dois
Só assim se atinge a perfeição
Para que pensar? Basta amar!
Mas amar de verdade, porque sem sinceridade
É só promiscuidade

Aquela que, uma vez ou outra,
Nos enche de vazio.
Dando uma sensação de completude
Até o próximo beijo
Onde tudo se esvai

E nada pode ser completo, se um dia acaba.
Nem as crianças.
Nem os adolescentes
Nem as senhoras e seus amantes
Nem os adultos executivos
Nem o progresso
Nem a cura promovida pelas pílulas.

E fim.

Pedra, Caminho E Você

Perder-se também é caminho.

Mas no meio do caminho, tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho.

Mas que se lasquem pedra e caminho
Se sem você aqui,
Me sinto tão sozinho.

domingo, 11 de outubro de 2009

Existir Vai Além De Viver

Um dia, chega ao mestre seu discípulo:

- Mestre, há realmente um deus ou vários deles? Seres que sejam infinitos em existência, perfeitos e julgadores de nós, reles mortais?

O mestre, sem titubear, responde automaticamente:

- Esses a quem chamam deuses na verdade não o são. Pois todos eles, sem exceção, dependem totalmente de seus devotos, e um verdadeiro deus por lógica, nunca dependeria da fé de outros para existir.

O aprendiz, indagado então questiona:

- Então, não existem deuses nem ninguém que olhe por nós neste vasto mundo; somos deuses de nós mesmos? Ou o senhor quer me dizer que a mãe de todos os deuses são os próprios fiéis?

O mestre sorri e diz:

- Nenhum dos dois. Na verdade, se uma fosse verdadeira, a outra também seria, e se ambas fossem, seria certo por lógica dizer que bastasse acreditar em você mesmo e logo você obteria o status de deus. Na verdade, só há uma entidade que possa ser chamada de deus.

- E quem é?

- O Tempo. O único que todos podem ter certeza de sua existência sem sequer vê-lo. O único, que em sua retilínea e estável perfeição, é capaz de criar guerras e proclamar paz; o único que subjuga todos os humanos, e os julga de acordo com sua velocidade; o único capaz de mover continentes; o único capaz de trazer desgraças e alegrias; nascenças e óbitos; o único manipulador de todas essas marionetes que chamamos atos e conseqüências.

O discípulo, desiludido, faz uma última pergunta esperançosa:

- Tudo e todos estão à mercê do Tempo, então? Não há nada que possamos fazer contra a inflexibilidade que nos impõe?

- Até podemos, temos essa liberdade. Mas nem todos a usam, e se deixam levar pelo Tempo, e viram pó, sem nunca terem realmente existido. De todos os seres e entidades que existem nesse Universo, só o Homem pode lutar contra o Tempo, em busca de sua verdadeira liberdade. É a simples diferença entre existir ou não, meu querido discípulo. Porque até os deuses perecem perante o Tempo, mas os Humanos, esses sim, podem se tornar imortais diante Ele.

E o discípulo então existiu.

O Céu E Suas Farpas São Testemunhas De Todos Os Assassinatos

Capítulo Único: A Fome

Era hora do almoço, finalmente. Já estava com fome desde cedo e parecia que a cada tarefa do trabalho que tinha de fazer, o estômago reclamava cada vez mais. Contudo sabia que no fundo a culpa era toda dele mesmo. Na noite anterior praticamente não dormira de tanto fazer amor com a esposa, era óbvio que acordaria tarde e que não daria tempo para o café da manhã.

Por conta disso, agora estava saindo rapidamente e desesperado do local de trabalho em busca de um lugar decente para comer. Tinha o hábito de comer fast foods, mas hoje era inviável, o estômago gritava por comida de verdade.

Logo percebeu que não tinha a mínima idéia de onde havia um bom restaurante. Era novo na firma, e pela pressa sempre acabava comendo um gigantesco hambúrguer, não havia precisado de um restaurante até então, e saíra com tanta pressa do escritório, que simplesmente esquecera a possibilidade de perguntar a um dos colegas onde encontrar um.

Agora estava ali, parado, pensando no que fazer. Meio que coincidentemente, viu um avião passando no céu escondido pelos edifícios enormes do lugar. Divagando, percebeu que ainda não havia se acostumado com aquilo tudo. Vindo do subúrbio com sua esposa, nunca havia sentido tanta falta do céu. Quase não dava pra ver a beleza do azul daquele dia com tanto cinza em volta.

Lembrou que antes da mudança, costumavam ir ao terraço do prédio de oito andares (e como já achava aquilo grande!) em que moravam, ele e a mulher. Não importava a cor do céu, ou a claridade do Sol, sempre conversavam e namoravam horas a fio lá em cima. Sentiam estar no topo do mundo.

A notícia do novo emprego, da mudança, e principalmente de que seria pai de gêmeos o assustou muito. Percebeu que ainda não estavam no topo, que havia um caminho muito maior a trilhar. Sentia-se motivado, esperançoso em relação ao futuro. Haviam deixado de ver o céu com a freqüência de antes, mas sabia que estavam cada vez mais perto de alcançá-lo para logo matar a saudade.

O céu, já acostumado com os arranhões e perfurações feitas pelos prédios da cidade, que lhe doíam como farpas, estranhou quando sentiu um projétil rasgando-o. Na verdade, não estranhou tanto assim, aquilo era de certa forma bastante comum.

Ao som do grunhido de seu estômago, ele despertou de seus pensamentos. Era engraçado como seus pensamentos conseguiram fazê-lo esquecer da fome por alguns instantes. Deu dois passos a frente, em direção à faixa de pedestres. Então sentiu algo vir violentamente contra seu corpo.

Não pôde ver bem onde foi atingido, só sentiu um grande alagamento dentro de si – de repente uma veia ou artéria importante, vá saber. Ficou imóvel por alguns segundos, sentindo apenas dor. Pensava como não havia ouvido o barulho do tiro, o grito das pessoas... mas logo descobriu: o som da cidade abafou tudo. Os carros buzinando, os guardas apitando, as crianças correndo e gritando, as mães gritando e correndo... mas agora a cidade se calara – ou então era ele que não ouvia mais nada.

Enquanto seus cinco sentidos iam se perdendo um a um, lembrou do amor de sua vida e de seus gêmeos. Ainda não sabia se formariam um casal ou se seriam do mesmo sexo... a ultra estava marcada só para semana-que-vem. Não existia mais semana-que-vem para ele. Sentiu sua roupa molhada e seus tecidos internos encharcados como esponja. Foi a última sensação que teve.

Nos seus últimos milésimos de consciência, embora já houvesse perdido a visão, esperava ver toda a sua vida passar diante de seus olhos. Mas deduziu que ou isso de fato não acontecia com os que estavam prestes a morrer, ou que de repente já havia visto toda sua vida: vira sua mulher e seus filhos, era um casal, e estavam os três felizes brincando no parque.

E então seu corpo tombou para frente - mas não houve problema, já não podia mais sentir a dor da queda. Já não podia ouvir a cidade (embora tivesse certeza de que continuava com o barulho habitual), nem muito menos alcançar o céu, o que tanto almejava há poucos segundos atrás.

Seu coração então parou. O estômago se calara. Estava morto.